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Candida: a importância da análise microbiológica no ambiente hospitalar

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Atualmente, as leveduras do gênero Candida são um dos maiores agentes de infecção hospitalar e representam um desafio para a sobrevida de pacientes internados em estado grave. Estas leveduras são consideradas o principal grupo de fungos patogênicos oportunistas, representando cerca de 8-10% das causas de infecções sanguíneas nosocomiais em UTIs.

Fatores que Influenciam a Infecção por Candida

O Candida é uma levedura que faz parte da microbiota do corpo humano e animais, colonizando a pele e mucosas dos tratos digestivo e urinário, bucal e vaginal.

Atualmente existem cerca de duzentas leveduras do gênero Candida, no entanto, pouco mais de 20 espécies são nocivas ao homem.

O principal fator do desenvolvimento de infecções por essa levedura, ocorre pelo rompimento do equilíbrio parasita-hospedeiro, desencadeado por alterações na barreira tecidual, alterações na microbiota autóctone e pelo comprometimento do sistema imunológico. Em enfermidades graves associadas a permanência prolongada em hospitais, há uma ocorrência maior no rompimento desse equilíbrio.


Procedimentos cirúrgicos de grande complexidade que levam a imunodepressão, perda de integridade das barreiras naturais pelo uso prolongado de cateteres, múltiplos procedimentos invasivos, terapia antibiótica prolongada, AIDS, neoplasias e quimioterapia são alguns dos fatores que contribuem para o aumento alarmante das infecções fúngicas nas unidades de terapia intensiva.

Infecções causadas por Candida spp

As infecções causadas por leveduras do gênero Candida dependendo do local da lesão, podem ser classificadas de duas formas distintas: candidíase superficial ou de mucosa e candidíase profunda ou sistêmica.

Candidíase superficial é a infecção mais comum dentre as candidíases, acometendo a pele e mucosas, e normalmente é causada por C. albicans, que é a espécie comensal mais comum encontrada na boca, vagina e trato gastrointestinal de indivíduos saudáveis.

Candidíase sistêmica acontece preferencialmente em pacientes com a imunidade comprometida, onde o microrganismo se dissemina através do sangue, e pode se instalar em órgãos vitais como cérebro, coração e rins. Por isso está relacionada com altas taxas de mortalidade.

Espécies como C. tropicalis, C. parapsilosis, C. krusei, e C. glabrata, são consideradas emergentes, e têm surgido como causadoras de infecções invasivas nosocomiais, principalmente em pacientes internados em UTIs.

Candida tropicalis on Sabouraud agar and Chromogenic candida agar (Fonte/Ref.:Microbiology in pictures)


Em 2019 outra espécie, a Candida auris, despertou a atenção de diversas entidades pelo mundo. É um microrganismo de baixa virulência, que causa sintomas apenas em pessoas hospitalizadas. A maioria dos pacientes fazem quadro de sepse, com febre, hipotensão e apresentou resistência a antibióticos. A mortalidade por complicações é menor que a Candida albicans, mas a grande característica é de apresentar resistência fúngica e de ter difícil diagnóstico, principalmente por laboratórios que não estão acostumados.

Cultura de Amostras Biológicas para Isolamentos de Fungos

Frente a estas condições recomenda-se a monitoração com exames micológicos em amostras biológicas dos pacientes, tais como, sangue, escarro, pontas de cateteres intravasculares, líquido peritoneal e urina. Culturas positivas para leveduras podem significar apenas colonização, mas podem conduzir à doença invasiva subsequente.

Um estudo prospectivo em pacientes cirúrgicos de UTI, mostrou que 38% de 29 pacientes desenvolveram infecção após colonização. A colonização pode ser demonstrada por análise de 3 ou mais amostras, coletadas do mesmo local ou de sítios diferentes, do mesmo paciente, em dias consecutivos.

A amostra, após o processamento, poderá ser usada para isolamento do agente etiológico. Para tanto, deverá ser semeada em movimentos de estrias (zig-zag) sobre a superfície de meios sólidos de cultura.

Meios de Cultura

O meio de cultura pode ser selecionado segundo: tipo de amostra e agente etiológico, conforme a suspeita clínica.
Para isolamento de fungos a partir de qualquer tipo de amostra, devem ser utilizados meios não seletivos, que permitam crescimento de fungos patogênicos e bolores de crescimento rápido (< de 7dias). Estes fungos, apesar de serem contaminantes de meio ambiente, podem ser agentes de micoses em pacientes suscetíveis, ou seja, são potencialmente oportunistas.

O meio usado em laboratório de micologia é o Agar Sabouraud Dextrose (ASD), ou ágar Sabouraud. Em regra, usa-se um antibiótico para impedir o crescimento de bactérias que possam prejudicar o isolamento de fungos. O cloranfenicol é o mais indicado, pois resiste à autoclavação. Pode ser colocado tanto no ASD como em outros meios de cultura para fungos para enriquecer esses meios para isolar o fungo.

Meios ditos seletivos para fungos patogênicos, contém cicloheximida que inibe parcialmente, ou totalmente, fungos anemófilos. Estes meios são indicados para cultivo de materiais coletados de lesões com suspeita de dermatofitose, para aumentar a sensibilidade no isolamento de dermatófitos. Mas, deve-se ressaltar que esta substância poderá inibir o isolamento de fungos oportunistas, como Aspergillus sp, além de Histoplasma capsulatum na fase leveduriforme e certas leveduras patogênicas dos gêneros Candida e Cryptococcus.

Existem meios presuntivos que indicam presença de certos grupos de fungos ou determinados gêneros, como por ex., ágar contendo compostos fenólicos para Cryptococcus sp (ágar contendo sementes de niger ou Guizzotia abssinica), ou ágar especial para dermatófitos (Dermatophyte Test Medium). Existem ainda, meios presuntivos, por reação enzimática e colorimétrica, de espécies de Candida spp (Candida Medium, ChromAgar, Biggy Agar, etc). São meios mais caros que ASD e, além disso, sua maior aplicação é no isolamento primário de leveduras, a partir de amostras biológicas muito contaminadas, tais como: secreção vaginal, fezes e urina. A identificação, no entanto, é feita somente, após análise morfológica e fisiológica.

Para isolamento ou subcultivo de dermatófitos recomenda-se o ágar batata,
encontrado no comércio, sob forma desidratada, para aumentar a esporulação e facilitar a identificação do gênero e espécie do fungo. Para fungos dimórficos, de crescimento lento (> 15 dias), recomenda-se o uso de meios enriquecidos como o Agar Infusão de Cérebro Coração (BHI) para obtenção, em menor tempo, de culturas melhor desenvolvidas. Pode ser acrescido de 5 a 10% de sangue de carneiro e de antibióticos (de preferência, cloranfenicol ou penicilina e estreptomicina).

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Referências:

  • Manual de Microbiologia Clínica para o Controle de Infecção em Serviços de Saúde – Editora
  • Agência Nacional de Vigilância Sanitária – 2004 https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_microbiologia_completo.pdf
  • Recomendações da sociedade brasileira de patologia clínica/ medicina laboratorial (sbpc/ml):
  • Boas Práticas em Microbiologia Clínica – 2015 http://www.sbpc.org.br/upload/conteudo/Microbiologia.pdf
  • MICROBIOLOGIA CLÍNICA PARA O CONTROLE DE INFECÇÃO RELACIONADA À ASSISTÊNCIA À SAÚDE – Módulo 4: Procedimentos Laboratoriais: da Requisição do Exame à Análise
  • Microbiológica e Laudo Final – Agência Nacional de Vigilância Sanitária | Anvisa – 2013 http://ccihadm.med.br/legislacao/Microbiologia_clinica_ANVISA__Procedimentos_laboratoriais.pdf
  • Caracterização e identificação de leveduras do gênero Candida em pacientes transplantados de medula óssea – HILDENE MENESES E SILVA – Dissertação de Mestrado da Universidade Federal de Goiás – 2011 https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/59/o/HildeneMeneses2011.pdf?1338299330
  • INCIDÊNCIA DE INFECÇÕES FÚNGICAS EM PACIENTES CIRÚRGICOS: UMA ABORDAGEM RETROSPECTIVA – NAKAMURA, Helayne Mika; CALDEIRA, Sílvia Maria; AVILA, Marla Andréia Garcia de – Rev. SOBECC, São Paulo. jul./set. 2013 http://sobecc.org.br/arquivos/artigos/2014/pdfs/revisao-de-leitura/Ano18_n3_%20jul_set2013-2.pdf
  • Importância dos fungos no ambiente hospitalar – Luciana da Silva RUIZ, Virgínia Bodelão
  • RICHNI PEREIRA – Núcleo de Ciências Biomédicas-Centro de Laboratórios Regionais de Bauru II-Instituto Adolfo Lutz – 2016 http://www.ial.sp.gov.br/resources/insituto-adolfo-lutz/publicacoes/bial/bial_26/26u_art-2.pdf
  • INFECÇÃO NFECÇÃO URINÁRIA URINÁRIA HOSPITALAR HOSPITALAR POR LEVEDURAS LEVEDURAS DO GÊNERO CANDIDA – R.D.R. DE OLIVEIRA, C.M.L. MAFFEI, R. MARTINEZ – Trabalho realizado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, SP. – 2001 https://extra.globo.com/noticias/fungo-fatal-que-se-espalha-por-hospitais-de-todo-mundo-pode-chegar-ao-brasil-alertam-especialistas-23586197.html
  • INFECÇÕES OPORTUNISTAS CAUSADAS POR LEVEDURAS DO GÊNERO CANDIDA SP. EM PACIENTES IMUNOCOMPROMETIDOS – Filipe A. Mesquita Oliveira – Universidade Federal de Minas Gerais – 2012 https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/BUOS-99RHN7/1/monografia_microbiologia.pdf
  • Microbiology in Pictures https://www.microbiologyinpictures.com/bacteria-photos/candida-albicans-photos/chromogenic-candida-agar-candida-tropicalis.html