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Candida Auris: O que é esse superfungo emergente que representa uma séria ameaça à saúde pública

A confirmação de um terceiro caso de Candida auris em paciente internado em um hospital em Pernambuco traz um alerta e uma preocupação para os profissionais de saúde no Brasil devido à sua facilidade de disseminação e ao seu padrão de resistência. Por se tratar de uma espécie emergente de levedura, origina-se novos desafios na prevenção e no tratamento das infecções fúngicas invasivas.

Candida Auris

Na maioria das vezes, as leveduras do gênero Candida residem em nossa pele, boca e genitais sem causar problemas, mas podem causar infecções quando estamos com a imunidade baixa, provocando infecções invasivas, como na corrente sanguínea ou nos pulmões. No caso da C. auris, ela costuma causar infecções na corrente sanguínea, mas também pode infectar o sistema respiratório, o sistema nervoso central dentre outros órgãos, como a pele.

A C. auris foi primeiramente isolada em 2009, na secreção de orelha externa de uma paciente hospitalizada em Tóquio – daí a designação “auris”. Desde então, houve mais de 5.000 casos identificados em 47 países. No Brasil, antes da notificação do primeiro caso em Salvador em dezembro de 2020, haviam sido notificadas 18 suspeitas desde 2017.

A taxa de mortalidade média é estimada em 39%, segundo cálculos em estudo de sete pesquisadores chineses publicado na revista científica BMC Infectious Diseases em novembro de 2020.

Por que o alerta de surto em hospitais?

Pode-se considerar que há um surto de Candida auris porque a definição epidemiológica de surto abrange, não apenas uma grande quantidade de casos de doenças contagiosas ou de ordem sanitária, mas também o surgimento de um microrganismo novo na epidemiologia de um país ou até de um serviço de saúde – mesmo se for apenas um caso.

Ao longo da pandemia da Covid-19, a Anvisa confirmou 18 casos da infecção em três surtos diferentes. O primeiro caso confirmado foi identificado em uma amostra da ponta de um cateter de paciente internado em UTI de Salvador, local dos dois primeiros surtos: um em dezembro de 2020 (com 15 casos e dois mortos em um hospital da rede privada) e outro em dezembro de 2021 (com um caso em um hospital da rede pública). Sendo assim, a confirmação da identificação de C. auris em um hospital de Pernambuco representa o terceiro surto no país.

Candida auris é um fungo emergente que representa uma séria ameaça à saúde pública considerando que eles produzem biofilmes tolerantes a antifúngicos apresentando resistência aos medicamentos comumente utilizados para tratar infecções por Candida.

Até o momento, foram identificados 323 isolados de C. auris de amostras clínicas no mundo. Destas, 90% eram resistentes a pelo menos um antifúngico e 30% eram resistentes a pelo menos duas classes de antifúngicos. Mais ainda, observou-se que isolados de C. auris podem adquirir resistência a antifúngicos aos quais eram previamente suscetíveis. Assim, por apresentar multirresistência, a Candida auris é conhecida popularmente como superfungo.

Os padrões de resistência encontrados foram os seguintes:

  • 90% com resistência a fluconazol
  • 50% com resistência a anfotericina B
  • 5% com resistência a equinocandinas
  • 30% com padrão de multirresistência

Outro motivo para preocupação de C. auris em causar surtos, é a possibilidade de permanecer viável por longos períodos no ambiente (semanas ou meses) e apresenta resistência a diversos desinfetantes, entre os quais, os que são à base de quaternário de amônio.

Assertividade no diagnóstico

Para a pessoa ser infectada é preciso que tenha sofrido procedimentos invasivos (como cirurgias, uso de cateter venoso central etc.) ou tenha o sistema imunológico comprometido. Pacientes internados em unidades de terapia intensiva por longos períodos e com uso prévio de antibióticos ou antifúngicos também são considerados grupo de risco para a contaminação. Além disso, a C. auris costuma ser confundida com outras infecções, levando a tratamentos inadequados.

Uma pesquisa realizada em um hospital italiano, no período de maio de 2020 a junho de 2021, mostrou, como fator de risco relevante, a presença de dispositivos invasivos. Dos 186 casos identificados (sendo 82 em pacientes com Covid-19 e 104 em pacientes sem Covid-19):

  • 93% possuíam cateter venoso central
  • 94,6% possuíam acesso venoso periférico
  • 95,7% possuíam cateter vesical
  • 80,6% estavam em ventilação mecânica
  • 36% haviam sido submetidos a procedimento cirúrgico

No Brasil, é um microrganismo de notificação obrigatória à Anvisa. As etapas e procedimentos laboratoriais para as análises microbiológicas de bactérias e fungos, classicamente, são baseadas na cultura. Apesar de serem técnicas bastante eficazes, um diagnóstico pode levar de dias a semanas.

Meios Cromogênicos: a próxima geração de meios de cultura

Os meios cromogênicos foram desenvolvidos para oferecer métodos mais rápidos e precisos para a detecção de patógenos com alta especificidade de forma mais simples e eficiente. Seu princípio está relacionado à utilização de substratos cromogênicos (reação de cor) característicos para cada patógeno, que são liberados após a hidrólise.

Isto é especialmente importante em casos de cultura polimicrobianas. O grande diferencial para esse tipo de cultura é a possibilidade da inclusão de agentes seletivos que impedem o crescimento e interferência de microrganismos não-alvo. A maioria dos meios cromogênicos é, portanto, seletivo e diferencial. Cada microrganismo é então identificado através de uma cor específica, determinando facilmente as colônias.

O resultado é exato e distinto. O cultivo pode ser observado e distinguível a olho nu por sua diferenciação baseado em cores. Além de permitir a detecção mais rápida de microrganismos específicos em relação aos meios de cultura tradicionais, têm maior sensibilidade e ainda podem reduzir a necessidade de outros testes complementares, exigidos nos meios de cultura tradicionais, como subculturas e confirmação, encurtando o prazo na identificação dos patógenos. Por isso os resultados são mais rápidos ajudando na prevenção da disseminação de infecções.

MALDI-TOF

Uma metodologia que se destacou no diagnóstico da Candida Auris foi a Maldi-Tof, do inglês Matrix-Assisted Laser Desorption Ionization Time-of-Light. Trata-se da aplicação da espectrometria de massa no alvo de interesse. Consiste num sistema no qual material biológico (uma colônia ou um concentrado de hemocultura) é colocado em uma placa em que há a matriz polimérica. Isso é irradiado com um laser que vaporiza a amostra e há ionização de várias moléculas, que são aspiradas num tubo de vácuo e levadas a um detector: conforme a molécula, o tempo de chegada ao detector (time of flight) é diferente. Isso é colocado em gráfico, dando vários picos e, para cada espécie bacteriana ou fúngica, obtém-se um gráfico específico. Uma base de dados computadorizada interpreta e fornece o resultado.

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Referências:

ANTIMICROBIAL RESISTANT PATHOGENS AFFECTING ANIMAL HEALTH IN THE UNITED STATES – American Veterinary Medical Association/Committee on Antimicrobials – 2020

https://www.cdc.gov/onehealth/basics/index.html

https://www.cdc.gov/healthypets/pets-and-antibiotic-resistance.html

https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/news/editorial/2018/12/03/21/27/one-health-antimicrobial-editorial

One Health: Você conhece o conceito de saúde única? – https://bioemfoco.com.br/noticia/one-health-conceito-saude-unica/

Por que uso de antibióticos na agropecuária preocupa médicos e cientistas – https://www.bbc.com/portuguese/geral-50119820

PANORAMA DO USO DE ANTIBIÓTICOS NA NUTRIÇÃO ANIMAL – https://nutricaoesaudeanimal.com.br/uso-de-antibioticos-na-nutricao-animal/